Como é que a Internet pode ajudar a fazer o luto?

A perda de um ente querido é uma experiência de grande impacto emocional, que nos obriga a repensar quem somos, qual o significado da nossa vida e como é que a pessoa que partiu pode continuar a fazer parte dela, agora de uma forma diferente. Há muitas maneiras de lidar com a perda, e tem todo o direito de a viver e sentir da forma como o está a fazer. Mas quando o sofrimento nos obriga a querer desistir de lutar, a querer viver somente do passado e a desistir do futuro, a procura de ajuda torna-se importante.

Consciente das implicações da perda nos contextos familiares, e cumprindo a sua missão de apoiar, aproximar e informar, a Plataforma Família, celebra com este projeto uma parceria.

A coordenadora do projeto, Daniela Alves, doutorada em psicologia clínica pela Universidade do Minho, dedica-se à intervenção no luto. Especializou-se no “modelo construtivista de reconstrução de significados após a perda” inventado por Robert Neimeyer, professor da Universidade de Memphis, nos Estados Unidos.

Foi responsável pela consulta de luto na unidade de adultos do Serviço de Consulta Psicológica e Desenvolvimento Humano da Universidade do Minho durante quatro anos. Prepara-se para fazê-lo pela Internet – na consulta do luto online desta instituição de ensino superior. Da mesma equipa fazem parte Miguel Gonçalves, catedrático da universidade, Inês Mendes e Joana Silva, doutoradas pelo mesmo estabelecimento, e João Baptista, licenciado. Todos treinados por Robert Neimeyer.

Estudos feitos nos Estados Unidos da América “mostram que a população em luto utiliza muito a Internet para perceber melhor a história da perda, procurar ajuda”, diz a investigadora. A equipa não conhece investigações semelhantes em Portugal, mas observa que “há uma adesão cada vez maior às novas tecnologias”.

As vantagens parecem-lhe evidentes, num país que se esvazia e envelhece. “Sem sair de casa, num local onde se sintam confortáveis, as pessoas podem ter acesso a ajuda especializada”, resume. E é gratuita, já que o ensaio clínico tem financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

consulta de luto online. Universidade do MinhoA equipa usará o modelo assente na terapia construtivista de reconstrução de significados após a perda que já testou nas consultas presenciais. “Claro que não é igual, mas queremos perceber qual o impacto e qual é a eficácia”, sublinha Daniela Alves. Inspira-a “o facto de noutros países este programas estarem a ter eficácia e permitir abarcar ou apoiar um número de pessoas que de outra forma não teriam apoio.”

O programa de “consulta de luto online” da Universidade do Minho assenta no contacto visual entre terapeuta e paciente. São 12 sessões de 55 minutos via Skype complementadas por email. “O uso do email será mais orientado para as actividade entre sessões”, explica. A pessoa pode, por exemplo, escrever sobre algo que tenham começado a conversar na sessão anterior ou que sirva de ponto de partida para a sessão seguinte.

A especialista explica o modelo terapêutico. No seu dia-a-dia, o ser humano cria narrativas que o ajudam a atribuir sentido ao que lhe vai acontecendo, a entender-se, a entender os outros, a entender o mundo. A morte de um ente querido pode provocar um corte com o que acredita, com o que prioriza, com o olhar que deita ao mundo. De um momento para o outro, já não sabe bem quem é, nem o que faz aqui, nem que lugar pode atribuir à pessoa que acaba de perder.

“Muitas vezes as pessoas que chegam à terapia com uma história de luto intenso e prolongado estão num impasse, não sabem que significado dar àquela perda, que por vezes faz com que a sua vida seja completamente contrária ao que imaginaram”, esclarece Daniela Alves. Precisam de ajuda para reconstruir a sua própria narrativa e, assim, assimilar a perda, dar-lhe um sentido.

Os cinco terapeutas recorrerão a um conjunto de técnicas. Havendo, por exemplo, situações não resolvidas com a pessoa que partiu, poderão reabrir-se ao diálogo, no sentido metafórico. Isto para tentar reconstruir significados num contexto em que a pessoa tem oportunidade de dizer o que ficou por dizer.

A equipa não está a sentir dificuldade em encontrar participantes. Já há inscritos. Chegam à página electrónica depois de terem lido um artigo na imprensa ou de terem sido encaminhados por entidades como o Instituto Português de Oncologia. As consultas só começam em Setembro. Na plataforma – www.consultaluto.com – há uma área reservada para marcação de consultas. É sugerido aos interessados que façam uma breve descrição da perda que os leva a pedir ajuda. Segue-se um contacto de email para agendar uma primeira sessão.

Há uma carácter privado e pessoal de viver o luto. Cada pessoa tem o seu próprio processo, o seu próprio tempo. Depende da sua personalidade, da sua cultura, da relação que tem com a pessoa que perdeu. Que ninguém lhe diga que não deve chorar, que não deve estar assim, que tem de ultrapassar.

 

Para mais informações consulte a plataforma em  www.consultaluto.com .

 

 

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