Amor de Irmãos

Fevereiro é por excelência o mês do amor. E o amor de irmãos é daqueles amores que se têm como certos, que incutimos desde cedo. Quantas vezes ouvimos “Estás mesmo a precisar de um irmão”? Um irmão não é uma estratégia parental, não é um recurso para exercer disciplina.
Mas onde será que reside o amor nas relações entre irmãos?

Creio que muitas vezes somos nós, que praticamente “obrigamos” os miúdos a amarem os seus irmãos. Porque se são irmãos, faz algum sentido que não se amem? A mãe estabelece com a criança um vinculo desde o teste positivo, ainda muito antes da ecografia. O pai geralmente após o pontapé ou por aí. E a criança? Sim preparamo-la para a chegada de um irmão. Mas em boa verdade é tudo muito abstrato, um dia a enorme barriga é parte da mãe, outro dia há um bebé que mora no seu colo, que recebe beijinhos e atenção. E a criança vê-se ali. A dividir o seu espaço e os seus com alguém que acabou de conhecer. E sim, fará parte da sua vida para sempre, mas ainda assim, mesmo que tenha demorado 9 meses, a sua chegada será sempre repentina para a criança.
Acredito que muitas vezes a criança ame a ideia de ter um irmão. De ter com quem brincar à apanhada, às escondidas. Ame a ideia de ser mais crescido, de ser o “mestre” – sim, porque os irmãos mais velhos são verdadeiros mestres. Mas depois há o resto. “Tens de estar quietinho porque o mano está a dormir”, “Tens de te tomar conta do mano”, “Tens de te portar bem, afinal és o mais crescido”. E é imputada à criança uma responsabilidade que não lhe cabe, é-lhe “negado” de certa forma o direito de continuar a ser criança.
Muitas vezes esperamos que os irmãos mais velhos “tomem conta dos mais novos”, mas não é essa a sua real função. Pode participar, não responsabilizar. Ser o irmão mais velho não significa estar quietinho, ser responsável, calmo, sossegado, simpático… Temos e precisamos de retirar essa carga, para que o amor entre irmãos possa fluir. Quantas vezes conheci crianças que negavam o ciúme que sentiam dos irmãos porque afinal de contas era expectável que os amassem. É uma violência. Para a criança. Para o seu coração e para o que nele mora.
É imperativo perceber que irmão que é irmão terá sempre ciúmes – afinal o ciúme é parte do amor – depois é importante mostrar ás crianças que é normal. Que podem sentir ciúmes. Que não gostam menos dos irmãos por causa disso. E que os pais gostam de ambos, de formas diferentes -porque também eles são diferentes. E assim dar espaço à criança para sentir o que quiser pelo irmão. Para o conhecer, se (re) conhecer e conhecer a relação que vão construindo. E é nesta segurança do “Eu não sou único, mas sou especial” que se desenvolvem crianças seguras e com autoestima. Prontas para descobrir o Mundo com os seus maiores e melhores companheiros de aventuras – os irmãos- e para descobrir um amor que durará a vida toda.

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